Com mais de uma morte por dia em 2026, MT registra 233% mais óbitos por suicídio entre homens

Dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) revelam que Mato Grosso registrou 234 mortes por suicídio entre janeiro e julho deste ano — uma média de aproximadamente uma vítima por dia no estado. Desse total, 180 são homens e 54 são mulheres, o que representa um número 233,3% maior entre a população masculina. Em números absolutos, a diferença chega a 126 óbitos: a cada mulher vítima, cerca de 3,3 homens perderam a vida.


O cenário chama atenção especialmente no mês de conscientização da saúde mental, o Setembro Amarelo, quando campanhas de prevenção e valorização da vida ganham destaque em todo o país.

 

Dados em alta: retomada de crescimento após dois anos de estabilidade

Os números de 2026 apontam para uma retomada de crescimento após um período de relativa estabilidade:

2022: 285 casos
2023: 340 casos (+19,3%)
2024: 339 casos (-0,3%)
2025: 322 casos (-5%)
Jan–jul/2026: 234 casos — alta de 19,4% em relação aos mesmos sete meses de 2025 e de 48,1% na comparação com 2022

 

O mês de janeiro de 2026 foi o mais crítico, com 53 mortes — o maior volume mensal registrado nos últimos cinco anos para esse período. A quebra do padrão histórico, que costumava concentrar casos no último trimestre do ano, acendeu alerta para a necessidade de intensificar ações de prevenção desde o início do ano.

 

Concentração nas maiores cidades

Quatro municípios concentram os maiores números absolutos no período:

Cuiabá: 39 casos
Várzea Grande: 19 casos
Rondonópolis: 19 casos
Sorriso: 12 casos

 

As prefeituras de Sorriso, Várzea Grande e Rondonópolis informaram que atuam com redes de atenção psicossocial, incluindo CAPS, equipes multidisciplinares e campanhas no Setembro Amarelo. Rondonópolis anunciou ainda a assinatura da ordem de serviço para construção de um CAPS III, voltado a atendimento de crise. A Prefeitura de Cuiabá não respondeu aos contatos até a publicação desta reportagem.

 

Por que os homens são maioria? A barreira da masculinidade

Para o psicólogo Rodrigo Brito, doutor em Estudos de Linguagem pela UFMT e especialista em Gestão Pública pelo IFMT, a disparidade não significa que homens sofram mais do que mulheres — mas sim que têm maior dificuldade de buscar ajuda.


“Existe uma construção social da masculinidade que, em muitos contextos, associa o homem à força, à autonomia e à ideia de que ele precisa resolver seus problemas sozinho. Isso pode dificultar a expressão da vulnerabilidade e a busca por apoio”, explicou.


Frases como “homem não chora” e “seja forte” fazem parte dessa socialização e podem transformar o ato de pedir ajuda em algo visto como fracasso. Consequência: muitos homens chegam aos serviços de saúde apenas quando o sofrimento já está grave.


O especialista alerta ainda para grupos de risco específicos, como aposentados e idosos, em que perdas, redução de renda, isolamento e mudança de papéis sociais podem ampliar a vulnerabilidade.

 

Sinais de alerta que não são só tristeza

Rodrigo Brito lembra que o sofrimento nem sempre se manifesta como tristeza. Ficar atento a mudanças de comportamento é fundamental:

Irritabilidade
Isolamento
Aumento do consumo de álcool
Comportamentos de risco
Afastamento de familiares e amigos
Abandono de atividades que davam prazer
Mudanças perceptíveis na rotina

 

Prevenção e onde buscar ajuda

O especialista defende que a prevenção deve chegar aos locais onde os homens estão — unidades de saúde, ambientes de trabalho, escolas e comunidades — e não apenas em momentos de crise. Também ressalta a necessidade de fortalecer o SUS e a Rede de Atenção Psicossocial, com qualificação profissional e estratégias que considerem as particularidades da população masculina.
Em caso de sofrimento ou risco, a ajuda está disponível:

 

CVV: telefone 188 (gratuito, 24h), chat em cvv.org.br ou e-mail apoioemocional@cvv.org.br
Rede pública: procurar CAPS ou UBS do município
Emergência imediata: ligar para o SAMU — 192

 

  • Fonte: Redação/Assessoria
  • Foto: Divulgação