Seis vezes por dia, uma família perde o rastro de alguém em Mato Grosso

Famílias que dormem com o telefone ao lado da cama, que percorrem hospitais e delegacias, que compartilham fotografias na esperança de uma pista. Em Mato Grosso, essa espera passou a fazer parte da realidade de milhares de pessoas. Dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, registram 1.536 desaparecimentos entre janeiro e agosto de 2026 — uma média de aproximadamente seis pessoas por dia.
Os números revelam a dimensão de um problema que, em sua maioria, envolve adultos: 1.046 dos registros referem-se a pessoas com 18 anos ou mais, enquanto 477 são de crianças e adolescentes de até 17 anos. Do total, 1.025 são homens e 511, mulheres. O mês de agosto registrou o maior volume: 226 ocorrências. As autoridades ressaltam, porém, que os registros não significam que todas essas pessoas permaneçam desaparecidas — parte delas já foi localizada.
Mas por trás de cada número há uma história. Nos últimos dias, dois nomes passaram a mobilizar buscas intensas na região metropolitana de Cuiabá: Breno Antônio Humberto de Moraes e Márcio Maraes Santos.
O professor e a pergunta que não se cala: "Onde está Breno?"
Breno, de 25 anos, professor das séries iniciais, foi visto pela última vez na noite de 26 de setembro, no bairro Capela do Piçarrão, em Várzea Grande. Câmeras de segurança registraram que, por volta das 20h26, ele subiu na garupa de uma motocicleta e não foi mais visto.
O caso ganhou contornos ainda mais angustiantes quando mensagens passaram a ser enviadas do celular de Breno após seu desaparecimento. O irmão gêmeo, Bruno, percebeu que o estilo das respostas era diferente. A família também recebeu uma fotografia que levantou suspeitas: as tatuagens características de Breno não apareciam na imagem. Até o momento, não há confirmação pericial pública sobre eventual manipulação.
A apenas nove dias de completarem 25 anos juntos, Bruno transformou as redes sociais em instrumento de busca.
"Eu quero encontrar o meu irmão, gente. Vivo ou morto, eu quero encontrar o meu irmão. Eu não vou descansar enquanto eu não encontrar o meu irmão."
A mobilização saiu das redes e chegou às ruas. Estudantes, amigos e familiares realizaram caminhada e distribuíram cartazes, inclusive na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), cobrando respostas. O caso foi inicialmente conduzido pelo Núcleo de Pessoas Desaparecidas e, diante dos elementos reunidos, passou à Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), sendo tratado como homicídio consumado. Um possível suspeito já foi identificado, mas sua identidade ainda não foi divulgada.
Do Maranhão a Cuiabá: uma viagem de trabalho que termina em silêncio
Enquanto a família de Breno busca respostas em Várzea Grande, outra percorreu mais de mil quilômetros. Márcio Maraes Santos, de 36 anos, saiu de Itaipava do Grajaú, no Maranhão, onde trabalhava na roça, em busca de uma oportunidade de emprego em Cuiabá. Desde a madrugada de 25 de setembro, porém, está desaparecido.
Márcio, que não possui visão em um dos olhos, veio sem a prótese ocular e precisaria passar por perícia para assumir a função prometida. A avaliação nunca aconteceu. Sem notícias, sem saber exatamente por onde ele seguiu, parentes deixaram o Maranhão e vieram procurá-lo.
Entre eles, o pai, Raimundo de Oliveira Sampa, conhecido como Zé Folia:
"Moro no Maranhão, em Itaipava do Grajaú, e estou aqui em busca de um filho meu."
Quando o número vira dor: cada desaparecimento afeta uma família inteira
Breno e Márcio têm histórias diferentes. Um é professor, visto pela última vez em uma motocicleta; o outro, um trabalhador que cruzou o país por uma chance. Mas ambos fazem parte da mesma estatística: seis vezes por dia, em Mato Grosso, alguém não volta para casa.
Os dados do Sinesp mostram que para algumas famílias a resposta vem rápido. Para outras, a espera se estende — dias, meses, anos. O que nenhum gráfico consegue medir é o que fica: o telefone que toca sem resposta, a cama que permanece arrumada, a rotina de uma família inteira que passa a girar em torno de uma pergunta.
"Quando alguém desaparece, não desaparece sozinho. A rotina de uma família inteira passa a girar em torno da busca por uma resposta."
Ajude a encontrar
Informações que possam contribuir para a localização de Breno Antônio Humberto de Moraes podem ser repassadas anonimamente pelo Disque-Denúncia 197 ou diretamente ao Núcleo de Pessoas Desaparecidas/DHPP pelos telefones (65) 3613-8777 e (65) 98173-0565.
Toda informação, por menor que pareça, pode ser a pista que devolve alguém para casa.
- Fonte: Redação/Gazeta Digital
- Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil




