Doenças ameaçam lavouras de soja

Para garantir uma produçao crescente, os produtores de Mato Grosso investem em fertilizantes, sementes resistentes a doenças e defensivos agrícolas, além de realizar o monitoramento das lavouras. Mas, ainda assim, os riscos e os prejuízos no campo estao presentes. Na safra 2014/2015, caracterizada pela estiagem que atrasou o início do plantio da soja e encurtou a janela ideal de plantio do milho, os produtores mato-grossenses devem redobrar a atençao em relaçao aos ataques de pragas e doenças, alerta a Associaçao dos Produtores de Soja e Milho (Aprosoja).
Além das chuvas irregulares no Estado, que tornou as lavouras de soja plantadas logo no início deste ciclo menos uniformes em algumas áreas, problemas com a qualidade das sementes e a elevaçao dos custos marcam essa safra e potencializam os riscos de doenças, especialmente da ferrugem asiática, que ameaça chegar mais cedo as lavouras comerciais.
‘Neste ano foi registrado um número maior de focos de ferrugem em plantas ‘tigüeras’ (voluntárias) em relaçao ao ano passado e, como vai ter várias lavouras chegando ao período de florescimento concentrado na mesma época, a incidencia da ferrugem pode ser maior’, avalia o pesquisador da Fundaçao de Apoio a Pesquisa Agropecuária de Mato Grosso (Fundaçao MT), Ivan Pedro Araújo Júnior.
De acordo com ele, os registros do Consórcio Anti Ferrugem apontam 8 focos da doença em lavouras comerciais do Estado neste início de ciclo, ante dois registros no mesmo período do ano passado, num aumento de 300%. Em todo o país, os focos de ferrugem sobem para 31 em 2014, sendo 106% acima daquele verificado em 2013.
Reforça a análise o pesquisador Fabiano Siqueri, da área de Proteçao de Plantas da Fundaçao MT. ‘Esses números sao muito maiores nesta safra se comparados ao mesmo período do ano passado, entao há uma perspectiva de que o fungo ataque um pouco mais cedo’. Ele observa que a soja começou a ser plantada neste ano quando a estiagem ainda era intensa no Estado. ‘Vimos um ataque muito severo de lagartas no começo, agora com a estabilizaçao das chuvas, a tendencia disso é diminuir. Mas, ao mesmo tempo, quando tem muita chuva surge um ambiente extremamente favorável para outras doenças, especialmente a ferrugem’.
Os especialistas da Fundaçao MT tem levado essas informaçoes aos produtores mato-grossenses durante os encontros do evento ‘É hora de Cuidar 2014’, realizado pela Instituiçao em 25 municípios, entre 10 de novembro até o dia 5 de dezembro.
Vazio sanitário – Os analistas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), autarquia ligada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), enfatizaram a importância dos produtores combaterem as plantas voluntárias durante o vazio sanitário para a soja em Mato Grosso na safra 2014/2015, que terá duraçao de 138 dias, conforme a Instruçao Normativa 007/2014 do Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso (Indea) e da Secretaria de Desenvolvimento Rural e Agricultura Familiar (Sedraf).
Nas safras anteriores, o período proibitivo ao cultivo após a colheita da soja perdurou por 90 dias. Com a nova regulamentaçao, a partir do dia 1o de maio de 2015 o cultivo da oleaginosa deve ser suspenso no Estado, até a data de 15 de setembro. A medida visa coibir a presença da ferrugem asiática nas lavouras, doença que causou prejuízos bilionários nas últimas safras em todo o país e retorna como forte ameaça neste ciclo produtivo da soja.
Conforme a Conab, a incidencia do cultivo de soja safrinha, ou seja, sucessiva a soja de primeira safra, induziu a uma forte presença de doenças e culminou com a aplicaçao acima do normal de fungicidas na safra 2013/2014. A situaçao decorreu da ‘migraçao da doença da soja primeira safra para a soja segunda safra, uma vez que a maturaçao fisiológica da planta impede que a doença sobreviva, entao ela emite esporos e é transportada para outras plantas em pleno vigor’, registram os técnicos da Conab no Segundo Levantamento de Safra 2014/2015, divulgado no início de novembro.
No mesmo documento, os analistas observam que, diferentemente da estiagem que marcou a fase inicial de plantio da soja no atual ciclo, durante a safra 2013/2014 o excesso de chuvas dificultou a aplicaçao de fungicidas no momento ideal. ‘Esse fator coloca em risco o desempenho da safra de verao, com suas implicaçoes na receita de exportaçoes do país, onde o agronegócio, a cada ano, aparece de forma destacada’.
Fronteira – Produtor na regiao de Cáceres e vice-presidente do Sindicato Rural do município, Jeremias Pereira Leite revela outro motivo para preocupaçao com a saúde das lavouras de soja: a proximidade com a fronteira boliviana. Do lado mato-grossense, 20 municípios integram a faixa de fronteira. Na regiao onde predomina a pecuária, as áreas de pastagens degradadas estao sendo ocupadas pela agricultura, principalmente pela cultura da soja. ‘A questao da fronteira causa uma preocupaçao constante, nao só por causa do risco de doença na pecuária como também nas lavouras’, admite.
Em Mato Grosso, os pecuaristas devem monitorar as pastagens para evitar prejuízos com a lagarta Spodoptera, como recomendam os técnicos da Embrapa Agrossilvipastoril, já que o clima quente e as chuvas esparsas contribuem para o aumento da populaçao dessa praga, situaçao que já vem ocorrendo em algumas regioes do Estado. Nas lavouras, outra lagarta ameaça a produtividade: a Helicoverpa, que causou perdas de R$ 931,930 milhoes para os sojicultores na safra 2013/2014, segundo análise do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).
A presença de lavouras próximas a fronteira também é considerada preocupante pelos técnicos da Conab, já que a Bolívia nao adota o vazio sanitário e as frequentes correntes de vento, no sentido do Pacífico e do sul da América do Sul, trazem esporos para as lavouras do Brasil, ‘sendo fonte de inóculo para os cultivos de verao, especialmente no Mato Grosso’, registram os analistas.
Diretor técnico da Associaçao dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja), Nery Ribas afirma que aos produtores da regiao a Associaçao reforça o alerta em funçao desse risco. ‘Mas, por ser uma área de cultivo nova, a incidencia de ferrugem e fungos é bem menor e, justamente por isso, o custo é inferior ao de outras áreas já consolidadas’, explica. De acordo com ele, independente da localizaçao, o segredo para combater as doenças é o constante monitoramento das lavouras e com o acompanhamento de engenheiros agrônomos.
Dos países fronteiriços com o Brasil e que cultivam soja, apenas o Paraguai tem o período do vazio sanitário regulamentado. Na Argentina, terceiro maior produtor mundial da oleaginosa, as baixas temperaturas na entressafra sao desfavoráveis a permanencia da soja tigüera/guaxa (planta viva) e por isso nao foi estabelecida a proibiçao ao cultivo.
Pelo mesmo motivo, o vazio sanitário nao é adotado no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. No Brasil, além destes dois estados, o Piauí e Roraima também nao tem regulamentado o vazio sanitário. Roraima devido a localizaçao geográfica e diferente época de semeadura, em maio e junho, em relaçao ao restante do país. Já no Piauí, a regiao produtora sofre escassez de chuvas e temperaturas elevadas na entressafra, tornando o ambiente desfavorável ao desenvolvimento da ferrugem asiática.
Autor: Silvana Bazani | Fonte: Redação / A Gazeta | Foto: Ilustrativa
