Dados revelam que em média 5 crianças e adolescentes são agredidas por dia em MT

Em 2020, uma média de cinco crianças e adolescentes foram duramente agredidas por dia em Mato Grosso, chegando ao ponto de causar lesões pelo corpo. O número é menor do que a média registrada em 2019, quando 7 menores de 18 anos foram vítimas de agressões, considerando apenas o que foi registrado em ocorrências das Polícia Civil e Militar – veja quadro. 

 

Segundo especialistas ouvidos, a pandemia pode ter promovido a subnotificação já que por muitas vezes as famílias tiveram que cumprir períodos de isolamento. E as agressões, na maioria das vezes, partem de pessoas ligadas ao menor e dentro da própria casa. 

 

A morte do menino Henry Borel Medeiros ocorrida, no dia 8 de março, no Rio de Janeiro. É um retrato extremo do que pode ocorrer com crianças e adolescentes no ambiente familiar.

 

Neste caso, Henry foi levado morto ao hospital pela mãe e o namorado, o vereador Jairo Souza Santos Júnior, conhecido como Doutor Jairinho. Eles disseram que encontraram o menino caído em seu quarto, mas uma perícia aponta que a causa da morte foi uma hemorragia interna. Vieram a tona, nos dias seguintes a morte de Henry, que ele era vítima constante de agressões do padrastro. A criança ficava nervosa, ao ponto de vomitar, só de chegar a vê-lo.

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Rodinei Crescêncio

 

O coordenador geral dos Conselheiros Tutelares de Cuiabá, Oilson F. de Souza Júnior, percebeu os vários relatos de violações e violências com crianças na imprensa, mas que as denúncias diminuíram nessas últimas semanas. Por isso, acredita que pode estar havendo subnotificação. “Os crimes estão acontecendo, mas não estão chegando à ponta”, diz.

 

“Escolas são uma grande porta de entrada de denúncias, e não estão funcionando. Os crimes podem estar acontecendo em casa e nós não termos conhecimento. A meu ver, um dos grandes motivos é por conta da pandemia, que está todo mundo em casa”.

 

De acordo com dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp), foram 1.891 crianças a adolescentes vítimas de lesão corporal em 2020. Em seguida vem casos de ameaça, com 1.672 registros, que também registrou uma queda de 30% nas ocorrências. O crime de estupro de vulnerável vem em terceiro com 1.142 ocorrências já foi produziu uma reportagem exclusiva sobre o crime de estupros de vulnerável apontando que, além das diversas causas para o crime, nem todo autor de violência sexual contra crianças pode considerado um pedófilo.

 

Isolamento X subnotificação

Oilson também acredita que o isolamento, como forma de evitar a disseminação do coronavírus, pode tornar mais suscetíveis essas violências. "A pessoa fica o dia todo dentro de casa. O psicológico fica abalado. Adulto não pode sair, criança não pode brincar, mas nada justifica os maus-tratos contra uma criança e adolescente".

 

A psicóloga Olga Santana também destaca que "quando essa pandemia começou, já se temia que situações de violências no âmbito familiar", justamente pela restrição das crianças ou adolescentes ao convívio social. "Muitas delas têm sofrido, além de violência sexual, situações de maus-tratos e violência doméstica, uma vez que se acentuou a convivência nos núcleos familiares", diz.

 

"Pesquisas científicas indicam que é uma consequência da pandemia as pessoas estarem mais sensíveis, ansiosas, irritadas e com alterações do estado de humor e das emoções. As consequências sociais da pandemia pode gerar uma sobrecarga emocional e a criança acabar sendo alvo de violências por parte dos adultos. É importante todos se atentarem para isso", acrescenta.

 

Olga comenta que, no Brasil, grande parte da população não realizava trabalhos home office e que os adultos não estavam preparados para lidar com crianças em tempo integral dentro de casa, em uma situação de distanciamento social, sem frequentar escolas e outros ambientes de lazer e socialização. "Foram todos pegos de surpresa, precisando aprender a lidar com essa nova realidade, que é muito desafiadora para os pais e a família como um todo", diz.

 

O conselheiro tutelar e a psicóloga apontam similaridades entre os casos de maus-tratos com criança com a violência sofrida pela mulher em ambiente doméstico. Ambos estão dentro de casa e são agredidos por aqueles que amam.

 

Oilson aponta ainda a condição de pobreza e falta de estrutura familiar para a prática preponderante desses crimes. "A vulnerabilidade social acarreta mais violência contra crianças. Pessoas com menos esclarecimento acabam cometendo essa situação. Muitos pais não têm equilíbrio emocional, acabam perdendo a cabeça e espancando a criança por situações tão fúteis".

 

O conselheiro tutelar fala que muitas mães não estão preparadas para ter muitos filhos e que é por esses momentos de "bobeira" que, uma criança é agredida ou abusada com violência, que se perde a guarda criança.

 

Palmada não educa criança

A psicóloga Olga Santana entende por maus-tratos tudo aquilo que viola o desenvolvimento, principalmente emocional, das crianças. "Há pais que vão dar uma palmada na criança e acreditar que não estão agindo com violência, sob o argumento de que na época de seus pais eram educados dessa forma. Contudo, não deixa de ser um ato de violência física que está causando dor e sofrimento ao outro. A psicologia já entende desde muito tempo que a punição e os castigos corporais não ensinam nem mudam comportamento".

 

Nos casos em que a criança não volta mais a repetir o comportamento indesejado pelos pais, Olga comenta que isso pode muito mais estar associado ao medo da agressão do que realmente ao fato de compreender o que ela fez de inadequado. "Essa criança pode parecer ter mudado o comportamento de forma consistente, mas não ter aprendido a importância dessa mudança”.

 

Esse modelo de educação com base nos maus tratos e agressão física pode ocasionar uma série de outras implicações para o desenvolvimento saudável de uma criança e ou adolescente, tais como, a manutenção do ciclo de relacionamentos violentos futuros, medo, insegurança e ansiedade na relação com os pais e demais pessoas com as quais se relaciona.

 

O conselheiro explica que, em qualquer caso de violência física, a criança é encaminhada para exame de corpo e delito. Se houver necessidade e com aval da Justiça, eles podem pedir a medida protetiva para tirá-la da casa e encaminhar para uma pessoa distante do agressor ou ao abrigo. Nos casos de estupro, a vítima também é encaminhada para o Hospital Universitário Julio Muller para tomar medicamentos para combater possíveis Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).

 

Denúncias

Pessoas que suspeitam de violações de direitos de crianças e adolescentes podem ligar no disque 100, ou procurar a sede do conselho tutelar da sua região. Eles também atendem em plantão noturno a partir de denúncias recebidas diretas pelo número (65) 9 9206-6741.

 

 

 

 

 

Autor: Allan Pereira | Fonte: Redação/RD News | Foto: Reprodução/Ilustrativa

  • Fonte: Redação/RD News
  • Autor: Allan Pereira
  • Foto: Reprodução/Ilustrativa