Boa Esperança do Norte: o município mais novo do Brasil, erguido pela força e sustentabilidade do agronegócio

Localizado no coração do Nortão mato-grossense, emancipado oficialmente em 2025, o caçula dos municípios brasileiros já desponta como potência agrícola, construído por famílias que apostaram em terra, cuidado e união.


Muito antes de ganhar prefeitura, ruas asfaltadas, mais de 470 empresas instaladas e o título de município, Boa Esperança do Norte já tinha sua história sendo escrita. Chegaram famílias vindas principalmente do Sul do país, enfrentaram estradas de terra, poucas casas, energia limitada e escassez de serviços — e transformaram uma pequena comunidade rural em um dos polos agrícolas mais promissores de Mato Grosso, referência em produção e, principalmente, em agricultura conservacionista.

 

Riqueza que brota da terra: agronegócio é a base de quase todo o PIB local

Os números revelam a força que move a cidade: o Produto Interno Bruto (PIB) estimado é de R$ 4,7 bilhões**, sendo **R$ 4,4 bilhões provenientes do agronegócio — correspondendo a 93,62% da economia municipal, enquanto os demais setores somam 6,38%. Os dados são da Secretaria Municipal de Agricultura e Desenvolvimento Econômico, levantados.


Na última safra, os resultados confirmam a relevância estadual: foram 906 mil toneladas de soja, 1,34 milhão de toneladas de milho e 135 mil toneladas de algodão, conforme dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). Entre os 141 municípios de Mato Grosso, ocupa posições de destaque: 8º maior produtor de milho, 17º em soja e 15º em algodão.


Mas esse crescimento não veio de forma aleatória ou predatória. Desde os primeiros anos, os pioneiros adotaram plantio direto, cobertura permanente do solo e rotação de culturas: práticas que reduzem erosão, mantêm umidade, recuperam fertilidade e garantem colheitas mais seguras, mesmo diante de variações climáticas.


Para o pesquisador da Embrapa Agrossilvipastoril Silvio Spera, com 35 anos de estudos sobre solos tropicais, essa escolha foi decisiva:

“Sem esses sistemas conservacionistas, o Nortão ainda seria uma enorme pastagem com baixa produtividade. Cuidar da terra não protege só a natureza — torna a agricultura viável e sustentável, condição essencial para as cidades crescerem e se desenvolverem.”

 

A visão compartilhada também guia o setor organizado. Paulinho Fontão, presidente do Sindicato Rural, reforça:

“Nosso progresso aconteceu porque produzimos com responsabilidade, tecnologia e pensando nas próximas gerações. A cidade cresceu junto com o trabalho feito dentro das propriedades.”

 

Da casa de madeira à cidade próspera: memórias dos pioneiros que abriram caminhos

Em 1998, o produtor Moacir Antônio Guarnieri deixou o Paraná com esposa, três filhos, irmã e cunhado. Ao chegar, encontrou apenas 11 casas, energia por gerador, água de poço e caminhos de barro.

 

Lembra com emoção dos primeiros desafios: na época, faltavam até frutas e verduras básicas — e os filhos, em viagens de compras até Sorriso, pediam apenas isso, sem desejar brinquedos ou doces.


Mesmo com dificuldades, nunca pensou em voltar. Trouxe na bagagem o aprendizado de preservar o solo, lição que aprendeu antes e aplicou desde as primeiras lavouras:

“Não queria repetir erros que vi em outros lugares. A terra tem que continuar dando frutos para quem vem depois da gente. Hoje minha maior satisfação é ver que deixamos o solo melhor e construímos um lugar onde famílias vivem e têm oportunidades.”

 

A história se repete em outros nomes. Moacir Zanatta foi um dos fundadores da Cooperativa Agropecuária Mista Boa Esperança (Coambe), criada há mais de três décadas para reunir produtores, facilitar crédito, assistência técnica e insumos — hoje atendendo cerca de 320 famílias e desenvolvendo ações sociais nas escolas. Seu filho Joelso Zanatta recorda o espírito comunitário do pai:

 

“Ele sempre dizia que cidade não cresce só com lavoura. Precisava de escolas, comércio, união. Todos fazendo a parte sua, porque quando a comunidade avança, ninguém fica para trás.”

 

Esse crescimento organizado abriu espaço para novos negócios. Em 2002, Sirlei Neuhaus apostou no comércio local, quando tudo ainda estava começando:

 

“Cada nova casa, cada morador chegando era um passo adiante. Hoje atendemos produtores, trabalhadores, serviços — a cidade evoluiu e diversificou junto com a economia.”

 

O movimento também fortaleceu o setor de serviços: hotéis recebem técnicos, transportadores, investidores e representantes o ano todo, reflexo da intensa atividade econômica que impulsiona a região.

 

Futuro com planejamento: crescer rápido, mas fazer tudo da forma correta

Com pouco mais de 5,8 mil habitantes, Boa Esperança do Norte já estreou superando cerca de 1,9 mil municípios brasileiros em população, conforme dados do IBGE. Agora, o desafio é transformar a força econômica em desenvolvimento estruturado e duradouro.


A localização favorece: cortada pela rodovia MT-140 e próxima à Ferrovia de Integração Centro-Oeste (FICO) e à BR-242, aposta na logística como motor de expansão. O prefeito e também pioneiro Calebe Francio prioriza ampliar infraestrutura urbana, abrir novos loteamentos e atrair empresas para consolidar o município como polo regional.


Para o vereador André Elias Fensk, que chegou criança em 2002, acompanhou toda evolução e participou da emancipação como líder comunitário e gestor público, o tempo é curto, mas a vantagem é poder planejar:

 

“Outros municípios tiveram décadas para se estruturar, nós precisamos avançar rápido. Mas isso nos dá chance de fazer melhor, organizado, com visão de futuro.”

 

E entre números, obras e projetos, a comunidade não esquece o patrimônio natural: o Salto Magessi, no Rio Teles Pires, com corredeiras e quedas preservadas, é ponto de encontro, lazer e orgulho. É o símbolo do equilíbrio construído até aqui: produzir forte sem abandonar a natureza, crescer sem perder a essência.


Ao final, como resume Moacir Guarnieri, valeu cada esforço dos primeiros anos:

“Os pioneiros lutaram muito, mas tudo fez sentido. Hoje caminhamos pelas ruas e vemos o resultado: uma terra fértil, uma cidade acolhedora e esperança renovada para continuar crescendo.”

 

Autor: Kessillen Lopes | Fonte: Redação/G1 MT | Foto: Edson Vitor