Com 2 óbitos e 23 infectados, medo é que vírus faça “carnificina” no mundo prisional

Com duas morte de presos por Covid-19, regitradas dia 20 e sexta (29), e pelo menos 12 detentos e 11 agente prisionais contaminados pelo novo coronavírus, sistema prisional de Mato Grosso entra em total alerta.

 

Um dos agentes contaminados, que trabalha na Penitenciária Central do Estado (PCE), braço-direito do chefe de equipe, afirma que, na rotina, entra em contato com praticamente toda a equipe. Sentiu os primeiros sintomas e fez o exame mais seguro, com coleta de amostras no nariz e garganta. Resultado demora até 7 dias para ficar pronto. Enquanto aguardava, trabalhou. Acredita que, para os agentes prisionais, deveria ter uma lei que garantisse um resultado mais rápido. Ressalta que tanto tem contato com colegas, quanto presos. "O contágio em um preso lá dentro ia ficar muito mais complicado para controlar, então a atenção teria que ser redobrada, ainda mais na PCE que tem cerca de 60 servidores por plantão e mais de 2,5 mil presos, embora tenha capacidade para 800 e poucos, então é uma superpopulação, quase uma cidade. Nem Deus há de deixar passar esse vírus para lá, porque se isso acontecer vai ser uma carnificina".

 

O agente tem 35 anos e nenhuma doença pré-existente. Até agora sentiu sintomas leves somente nos dois primeiros dias da doença e no momento está em quarentena, já assintomático. Em casa, está sendo tratado com Cloroquina, Azitromicina, Ivermectina e vitamina. Ele é casado, tem uma filha 9 anos. A esposa e a menina estão bem. Mesmo assim, está tomando cuidados. Fica cada um em seu cômodo, ele usa máscara por 24h e se alimenta com talheres separados.

 

Outra agente, que está em quarentena sob suspeita, ainda não sabe se foi afetada pelo coronavírus. Não  acredita que a sociedade esteja muito interessada na bomba-relógio que é o sistema prisional, porque muitos "querem mais é que presos morram". Ocorre que, em meio a eles, estão expostos também os agentes prisionais e demais servidores do setor. Ela explica que está em quarentena porque fez viagens e teve contado, dando cursos, com colegas de pelo menos 3 cidades do Nortão.

 

Além dela, mais 8 colegas também já pediram afastamento.

 

Servidores, com quem o   conversou, acreditam que esteja ocorrendo negligência e demora no afastamento de quem tem contato com contaminados e isso deveria ocorrer de imediato e não esperar que apareçam sintomas. Destacam que isso inclusive consta no ítem 8 do protocolo que dispõe sobre os procedimentos de acompanhamento e notificação de casos suspeitos e confirmados de servidores com Covid-19, na Nova Chance, Politec e Secretaria de Estado de Segurança Pública.

B1b1be4d7db48b41d25bce136cf06370

Os agentes dizem ainda que os presos também estão bem assustados com a Covid-19, pois ficaram sem visita familiar e de advogados. Não têm acessso a álcool em gel e, se têm máscaras, não usam no dia a dia. Resta água e sabão para lavagem de mãos.

 

Diretor da PCE, Agno Sérgio Ramos, reconhece que a situação é alarmante, dentro do sistema prisional e ressalta que fora também. Entre o que pode ser feito, segundo diz, tudo está sendo feito. Alega que álcool em gel não pode ser repassado a preso, sob pena de usarem para o que não é devido. E afirma que todos têm máscara, para eventualidade. A suspensão de visitas de familiares e advogados é uma medida protetiva e garante que a população carcerária está tendo contato somente mesmo com agentes prisionais. De 15 em 15 dias, a direção diz ter tentado garantir a todos encontros virtuais, para aplacar as saudades e impedir alteração de ânimos. Reconhece porém que há setores da PCE em que presos são de difícil trato e portanto é difícil também cobrar qualquer coisa deles, inclusive cuidados.

 

Ele também nega demora no afastamento de servidores vulneráveis. "Qualquer sintoma e se isolam".

 

Juiz da Vara de Execuções Penais, Geraldo Fidelis, afirma que procedimentos estão sendo tomados. Ele foi pessoalmente à PCE e ao Presídio Feminino Ana Maria do Couto May esta semana, para verificar in loco a situação. Segundo ele, rígidas normas da Secretaria Adjunta Penitenciári estão de acordo com as orientações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). "Isso explica martermos, em Cuiabá e em VG, uma razoável tranquilidade no Sistema Penitenciário. Mas a rigidez no controle de acesso ao interior das unidades sempre é necessária, aliás, deve ser intensificada. A minha visita de inspeção foi de surpresa".

Autor: Keka Werneck e Mikhail Favalessa | Fonte: Redação/RD News | Foto: Reprodução