Com três ocorrências ao dia, bombeiro de MT estuda motivação de suicídio para evitar mais mortes

Dor. É o que bombeiros também sentem quando atendem ocorrências de suicídio ou tentativa. Ver a pessoa em sofrimento e prestes a encerrar a própria história é um abalo. Com 3 chamadas por dia na região Metropolitana, a corporação está trabalhando para cuidar melhor da saúde emocional dos quem lidam com este problema e também qualificá-los para fazer a abordagem cada vez mais precisa, evitando mortes.

 

“O bombeiro é uma pessoa comum. Às vezes, estamos atendendo um adolescente, uma idosa ou um cidadão com surto, ou seja, alguém que sempre traz uma referência na vida cotidiana dele”, diz o tenente Cleberson Nogueira, que atende com frequência casos assim.

 

Há três anos à frente da Coordenadoria de Assistência Psicossocial e Religiosa do Corpo de Bombeiros, que é responsável pelos atendimentos psicológicos direto dos militares, Cleberson vê no dia a dia o quê estudos e dados apontam: em aumento visível de casos. Para entender do assunto, sentiu necessidade de cursar psicologia.

 

Seu próximo desafio é criar um grupo especializado de militares para atender somente as ocorrências de suicídio ou tentativa na região metropolitana, que compreende as cidades de Cuiabá, Várzea Grande, Santo Antônio do Leverger e Nossa Senhora do Livramento.

 

O crescente aumento das chamadas de tentativa é a justificativa para criar o grupo, segundo Cleberson. “Quase todo dia de serviço tem uma”. Enquanto para todo 2019, houve um média de 1,3 chamados por dia, somente em janeiro e fevereiro de 2020 foram 2,8 atendimentos. Exatamente 479 atendimentos a tentativas de suicídio no ano passado e 171 no primeiro bimestre do ano.

 

"É surreal", exclama. “Nós tivemos aumento de 116%. É muito além do que a gente pensava e se preparar é importante. O militar está extremamente pronto para incêndio, salvamento aquático ou em altura. Quando é tentativa de suicídio, é uma vertente totalmente diferente. Então, temos que estudar e não se trata de preparo apenas fisicamente”.

 

O grupo ainda não tem previsão de começar. Os militares ainda devem ser selecionados e passar por intensa capacitação para fazer este tipo de ocorrência. Cleberson destaca que o bombeiro, para atuar no grupo, tem que ter perfil: bem fisciamente, saúde mental em dia e ser do tipo “que não absorve o problema como sendo dele” e saber separá-lo de sua vida pessoal.

 

Por ora, as ocorrências são atendidas por todos os bombeiros, sem distinção. Explica que, quando chamados, agem conforme duas situações: a técnica e a tática. A primeira consiste na escuta ativa do tentante. Ser um ouvido amigo na hora difícil, sem julgamentos e ter liberdade para desabafar os sentimentos. A ideia é que, pela conversação, ele desista do ato e saia com a consciência para procurar um serviço psicológico.

 

Mas, caso os militares percebam que a pessoa está prestes a cometê-lo, eles agem de forma tática. "É o bombeiro colocando em risco a própria vida para salvá-lo", disse. Porém, enfatiza que essa medida é a última solução possível, pois ouvi-lo e convencê-lo é o mais eficaz. Já nos casos consumados, em que há morte, os militares fazem resgate e preparo do corpo.

 

Além de atuar nas ocorrências, o Corpo de Bombeiros faz palestras com os próprios militares e, quando solicitados, com a sociedade. Eles e os demais profissionais da segurança pública (policiais militares, rodoviárias, civis e guardas de trânsito) passam por diversos cursos de formação sobre o assunto. Cleberson disse que a atualização é constante.

 

"O suicídio e a tentativa são muito mais abrangentes do que as pensam. Tem sempre fatores pregressos para que a pessoa chegue naquela situação. Já o ato atinge familiares, amigos, colegas de trabalhos e o profissional de segurança pública, que fez o atendimento da abordagem. A sociedade tem que entender que a ocorrência não termina naquele dia. Tem que ter acompanhamento. Por que pode ser que ele se consuma", pontua.

Autor: Allan Pereira | Fonte: Redação/RD News | Foto: Reprodução

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