Dados mostram que 79% dos autores de feminicídios em MT tinham antecedentes criminais

Levantamento divulgado pelo Observatório Caliandra, órgão do Ministério Público de Mato Grosso, traz dados alarmantes sobre os crimes de feminicídio registrados no estado entre janeiro e maio de 2026. De acordo com o estudo, dos 18 casos confirmados neste ano, 79% dos agressores já possuíam passagens pela polícia — muitos delas por crimes de violência doméstica, ameaça, lesão corporal, estupro e outros delitos contra a vida e a dignidade sexual.
 
Os registros criminais dos autores também incluem ocorrências como injúria, difamação e tráfico de drogas, o que revela um histórico de condutas violentas que, na maioria das vezes, não foi devidamente contido. Outro dado que chama atenção é que apenas 29% das vítimas — o equivalente a cinco mulheres — haviam registrado boletim de ocorrência contra os agressores. Deste grupo, somente uma contava com medida protetiva de segurança ativa no momento do crime. Além disso, 82% dos feminicídios ocorreram dentro da própria residência da vítima, local que deveria ser o seu espaço de proteção.
 
Na comparação com o mesmo período do ano passado, o aumento é de 17%: em 2025, foram 15 casos registrados entre janeiro e maio, enquanto neste ano já são 18 vidas perdidas em apenas 134 dias. Os crimes foram registrados em 15 municípios mato-grossenses, com maior incidência em Cuiabá (três casos) e Tangará da Serra (dois).
 

Casos que evidenciam o risco iminente

 
Entre os episódios mais graves, está o de Douglas Aparecido Ferreira, de 35 anos, que estuprou e matou a jovem Clara Vitória, de 23 anos, em Tangará da Serra. Ele já respondia judicialmente por 15 ocorrências, entre elas estupro, agressão e ameaça, mas mesmo assim permanecia em liberdade.
 
Ainda no mesmo município, José Carlos Gomes de Souza, de 20 anos, assassinou a estudante de Direito Valéria Araújo Corrêa, de 28 anos, dentro de uma quitinete, desferindo 31 facadas. O autor possuía antecedentes por roubo na cidade e por violência doméstica em Cáceres.
 
Em Cuiabá, o caso de Marcos Pereira Soares também choca pela reincidência. Ele denunciado por matar a própria irmã, a adolescente Estefane Pereira Soares, de 17 anos, acumulava oito passagens criminais por tráfico de drogas, corrupção de menores, porte ilegal de arma, ameaça, lesão corporal e estupro de vulnerável. Em 2023, foi condenado a 19 anos de prisão por homicídio e a mais de cinco anos por roubo, mas foi solto dias antes de cometer o novo crime por conta de um erro do Judiciário.
 
A única vítima que contava com medida protetiva era a professora Luciene Naves Correia, morta em fevereiro deste ano. O autor do crime, Paulo Neves Bispo, de 63 anos, ex-companheiro da vítima, pulou o muro da residência, cometeu o assassinato e ainda pretendia matar a filha dela. Ele fugiu armado, mas foi perseguido por um policial militar de folga e morto na região do bairro Jardim Liberdade.
 
Os dados do Observatório Caliandra reforçam a necessidade de medidas mais rigorosas para garantir o cumprimento das medidas protetivas, a aplicação correta da lei e o acompanhamento de autores de violência, com o objetivo de interromper ciclos de agressão antes que cheguem ao desfecho fatal.
 
 

Autor: Aline Almeida | Fonte: Redação/Gazeta Digital | Foto: Chico Ferreira