Juiz determina que USP forneça ‘pílula do câncer’ a paciente de Sinop

O juiz da 6ª Vara da Comarca de Sinop, Mirko Vincenzo Giannotte, determinou que a Universidade de São Paulo (USP) inclua um paciente na lista de testes para tratamento contra o câncer com fosfoetanolamina sintética.
Conforme a ação, o paciente foi diagnosticado com um nódulo no rim direito, no início deste ano. A indicação inicial era para cirurgia diante das características do câncer. Porém, após avaliações pré-operatórias, foram identificados problemas cardíacos, que impediram o paciente de ser submetido ao procedimento cirúrgico.
“Estende afirmando que “ao realizar as avaliações pré-operatórias necessárias ao procedimento, especificamente na avaliação cardiológica foram constatadas várias obstruções arteriais no coração” e, portanto, “impede a realização da cirurgia para retirada do nódulo no rim direito”, logo “a única alternativa do autor é aguardar enquanto se submete ao tratamento cardiológico até que seja possível realizar a cirurgia de retirada do nódulo do rim direito”, diz trecho da decisão.
Diante da situação, o paciente recorreu ao Judiciário para que seja incluso na lista de testes, pela USP, para o tratamento com fosfoetanolamina sintética. A liminar foi concedida pelo magistrado, que estabeleceu um prazo de 48 horas para o cumprimento, à partir da notificação.
“De acordo com os estudos analisados pelo autor e seus familiares em relação a fosfoetanolamina sintética, trata-se da esperança para a saúde e vida do paciente”, eis que há “inúmeros relatos de pessoas que alcançaram a cura e outras centenas que melhoraram a condição de vida após a utilização da fosfoetanolamina sintética”, justificou.
O juiz determinou ainda que a universidade forneça ao paciente a medicação por prazo indeterminado e em quantidade mensal suficiente que garanta o efetivo tratamento da doença. O magistrado destacou ainda que não será admitido atraso ou não cumprimento da ordem judicial.
Pílula do câncer
A fosfoetanolamina é uma substância química produzida no organismo humano. Ela é indispensável para a vida humana. Dela se origina outra substância, a fosfatidiletanolamina, que está presente em todos os tecidos e órgãos humanos. A fosfatidiletanolamina é responsável por normalizar o metabolismo oxidativo, que gera energia no corpo. Esse processo fica prejudicado em células cancerosas. Em teoria, a ingestão do medicamento faria com que as células voltassem a trabalhar normalmente. Com isso, o câncer pararia de se desenvolver.
A fosfoetanolamina (produzida em laboratório) apresentou em testes propriedades antitumorais em células (in vitro) e em animais portadores de tumores. Já a natural não apresenta essas propriedades—ela para de funcionar, mas os pesquisadores ainda não sabem os motivos disso.
Os testes foram feitos em células humanas em laboratório, porém não em pessoas. Segundo o pesquisador Durvanei Maria, foram estudadas linhas celulares de tumores, como melanoma, pâncreas, renais, leucemias, entre outros.
O professor Durvanei Maria afirma que a fosfoetanolamina sintética inibiu a capacidade de multiplicação ou proliferação celular dos tumores. Isso foi feito a partir da morte celular programada– um efeito que pode ser visto, geralmente, na queda das folhas das árvores no outono.Os resultados foram obtidos por Maria em todos os modelos estudados (células de camundongos, ratos ou em células humanas).
Segundo a doutora Giovana Torrezan, medicamentos contra o câncer que estão em desenvolvimento atualmente não são como a quimioterapia, que mata todas as células que se dividem no corpo humano. Esses medicamentos em desenvolvimento são chamados de “drogas alvos” e só alteram as células tumorais.
Já a pílula de fosfoetanolamina reativa a morte celular programada, estimula o sistema imune a eliminar a célula do tumor e pode impedir o desenvolvimento de vários outros tumores. “Mas ainda não se sabe quais seriam seus efeitos colaterais", explica.
As pesquisas comprovam que a fosfoetanolamina não altera as propriedades dos remédios usados durante a quimioterapia. Além disso, ela também é capaz de aumentar a probabilidade de sobrevida e diminuir significativamente os efeitos colaterais.
Assim, a fosfoetanolamina não serve como substituto da quimioterapia. Na realidade, a associação dos dois medicamentos e de outros tratamentos talvez possa ajudar no combate ao câncer.
De acordo com Roberto Ferreira, farmacêutico e bioquímico com doutorado em oncologia, a substância já passou por ensaios pré-clínicos e apresentou bons resultados. No entanto, a cada etapa do processo de estudo de um potencial candidato a medicamento, muitas moléculas que eram promissoras são abandonadas por perda de atividade ou na avaliação de riscos e benefícios.
“A fosfoetanolamina já passou por duas importantes etapas, mas a história nos mostra que não há garantias que mantenha a atividade em humanos e que não haja riscos, ou interações importantes com outros medicamentos que o paciente esteja utilizando”, avisou Ferreira.
Autor: Julia Munhoz | Fonte: Redação/ Nova Edição | Foto: Reprodução
