Mato Grosso lidera taxa de feminicídio no Brasil: risco é 80% maior que a média nacional

Mulheres mato-grossenses têm 80% mais chances de serem vítimas de feminicídio do que a média das brasileiras. O dado alarmante faz parte da pesquisa de doutorado “Eles Não Param de Matar”, da promotora de Justiça do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) Lindinalva Rodrigues, apresentada neste mês. Primeira promotora do Brasil a aplicar a Lei Maria da Penha no país, ela reúne mais de duas décadas de atuação no combate à violência doméstica e alerta: o crescimento econômico do estado não se refletiu em segurança para a população feminina.

 

Dados confirmam cenário de maior vulnerabilidade

Com base em dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o estudo mostra que Mato Grosso lidera o ranking nacional de taxa de feminicídio per capita: 2,52 mortes para cada 100 mil mulheres — índice 80% superior à média do país.


Os números recentes reforçam a gravidade:

Em 2025, foram registrados 53 feminicídios consumados e 103 tentativas;
Até junho de 2026, já contabilizam-se 22 casos de morte de mulheres no estado.

 

O levantamento também traça um perfil claro das vítimas: mais de 61% são mulheres negras, repetindo uma tendência nacional de desigualdade racial na violência letal.

 

“Soberano do lar”: quando a própria casa se torna local de risco

Um dos pontos centrais da tese é a constatação de que o ambiente doméstico é, cada vez mais, o cenário principal dos crimes. Em 2024, 83% dos feminicídios ocorreram na residência da vítima; em 2025, o índice foi de 79,25%; e no primeiro trimestre de 2026, saltou para 91,67%. Além disso, 80,7% dos autores são companheiros ou ex-companheiros.


Diante desse quadro, Lindinalva criou o conceito de “soberano do lar”:

 

“Criei esse termo para deixar muito claro que a residência é o grande palco desses crimes. Muitas mulheres vivem em um ‘Estado de Exceção’, onde não valem leis nem direitos — vale apenas a vontade do agressor, que se acha dono da vida e da morte dentro de casa.”

 

Para ela, a estrutura social e a omissão do Estado fazem com que a violência seja tratada como um assunto privado, e não como uma questão de segurança pública.

 

Riqueza não significa proteção: o contraste do “Celeiro do Mundo”

Mato Grosso é um dos estados mais ricos e produtivos do país: entre 1995 e 2025, o PIB cresceu 661% em termos reais, e a produção agropecuária ultrapassa R$ 200 bilhões por ano. Mesmo assim, segue como o lugar onde mais se mata mulheres no Brasil.

 

“Mato Grosso é um laboratório da morte de mulheres. O que vejo aqui é o ‘patriarcado agrário’ e o isolamento do interior andando lado a lado com a expansão agrícola. O Estado é muito eficiente para proteger safras, propriedades e mercados, mas falha completamente em proteger a vida das mulheres, especialmente nas regiões mais afastadas”, critica a promotora.

 

Leis mais duras não bastam: o problema está na prevenção

O Brasil já avançou com marcos legais importantes: a Lei Maria da Penha (2006), a Lei do Feminicídio (2015) e, mais recentemente, a Lei Antifeminicídio (2024), que elevou a pena máxima para 40 anos — a maior do Código Penal. Mesmo assim, os números continuam crescendo. Em 2025, o país registrou 1.568 feminicídios, alta de 4,7% em relação a 2024, com média de quatro mortes por dia. No primeiro trimestre de 2026, foram 399 casos, alta de 7,5% e o resultado mais grave da série histórica.


Para Lindinalva, o erro está na estratégia:

“Aumentar penas sem garantir proteção e atendimento não resolve. O Estado age apenas quando o crime já aconteceu, como se fosse só para contar corpos. Falta olhar para a violência como um processo que começa com ciúmes, controle, isolamento e ameaças — e que pode ser interrompido antes do fim trágico.”

 

Ela lembra ainda que o machismo dentro das próprias instituições faz com que muitas vítimas não sejam ouvidas ou acabem culpabilizadas:

 

“Medo, dependência econômica e desconfiança na polícia ou na Justiça fazem com que mulheres não denunciem. E quando denunciam, muitas vezes não têm sua palavra valorizada. Isso mantém o ciclo de violência ativo.”

 

Casos históricos que marcaram a luta

Durante a pesquisa, a promotora analisou três casos que marcaram a história do país e ajudaram a mudar leis, mostrando como a sociedade reage — ou deixa de reagir — à violência de gênero:

 

Ângela Diniz (1976): Morta a tiros pelo namorado, que usou a defesa da “honra ferida”. A revolta popular deu origem ao movimento “Quem Ama Não Mata” e levou à revisão da pena.


Daniella Perez (1992): Atriz jovem e famosa, assassinada por colega de elenco. A mobilização da mãe, Glória Perez, reuniu mais de 1 milhão de assinaturas e resultou na lei que classificou homicídios como crimes hediondos.


Eliza Samudio (2010): Morta após lutar pelo reconhecimento de paternidade do filho, em crime que teve como mandante o ex-goleiro Bruno. O caso expôs a relação entre poder, impunidade e violência contra a mulher.

 

“Esses casos humanizam os números. Mostram que cada estatística tem nome, rosto e história. Eles são fundamentais para criar consciência coletiva”, explica a pesquisadora.

 

Sinais de alerta e como se proteger

A pesquisa também lista os principais indicadores de risco de violência letal: comportamento controlador, ciúmes excessivo, isolamento de amigos e familiares, vigilância constante, ameaças e humilhações. Qualquer um desses sinais merece atenção.


Lindinalva deixa um recado e uma esperança:

“Quero que esse estudo provoque desconforto. Que as mulheres deixem de ser apenas números. Para mudar, precisamos de educação, de presença do Estado, de rede de apoio e de uma cultura que não aceite mais que alguém se ache dono da vida de outra pessoa. A frase ‘Eles não param de matar’ precisa deixar de ser presente e passar a ser passado.”

 

Canais de ajuda em Mato Grosso

Se você ou alguém que você conhece sofre violência, procure ajuda gratuita, sigilosa e 24h:

Central da Mulher: 180
Emergência Policial: 190
Delegacia Virtual MT | Medida Protetiva Online | Patrulha Maria da Penha | Boletim de Ocorrência Online

 

Você não está sozinha. Denuncie.

 

Autor: Mariana Lenz | Fonte: Redação/Primeira Página | Foto: Divulgação