Mato Grosso ultrapassa a marca de 100 mil casos de covid-19

Quando, em fevereiro de 2020, os jornais de diferentes localidades começaram a noticiar o surgimento de um novo vírus, ainda era verão no hemisfério sul. As pessoas ainda iam à praia, ainda se reuniam depois do trabalho para tomar uma cerveja gelada com os amigos, ainda se abraçavam e beijavam seus familiares. O “novo coronavírus”, como era chamado, parecia algo distante. Acreditava-se que seria passageiro e que talvez não fosse tão perigoso assim. As pessoas torciam para ser um exagero e como consequência não havia motivo para inquietudes: afinal, a China está geograficamente distante do Brasil.
Conforme as semanas passavam, as informações sobre a doença desconhecida se tornavam constantes. Por causa dela milhões de cidadãos foram confinados em Wuhan e no mundo. Enquanto isso, nas redes sociais circulavam vídeos de pessoas em hospitais, desamparadas, à mercê de um diagnóstico, ou de filas de caminhões do exército transportando os caixões das vítimas – como na Itália. Os brasileiros observavam de longe o colapso sanitário que esses países enfrentavam e clamavam para que a sua vez nunca chegasse. Isso durou até que o primeiro caso de covid-19 fosse confirmado em São Paulo, em fevereiro.
Mato Grosso teve a certeza do seu primeiro caso no dia 19 de março, cerca de um mês depois. Desde então, o estado já contabiliza mais de 3 mil mortes em decorrência da doença e ultrapassou, nesta terça-feira (08.09), a marca de 100 mil casos confirmados de covid-19. São filhas, amigos, avós, mães e pais que perderam a luta para o coronavírus, mas que são lembrados com carinho pelos seus entes próximos. Nesta conta também estão os que se recuperaram, com sintomas graves ou não, e que servem de esperança para os que enfrentam a batalha pela sobrevivência.
O boletim mais recente da Secretaria de Estado de Saúde, divulgado nesta terça, aponta que já são 100.012 os casos confirmados da covid-19 em Mato Grosso. No total, são 3.010 óbitos em decorrência do coronavírus no Estado sendo que 32 foram registrados apenas nas últimas 24 horas. Há, ainda segundo a SES, 15.546 pacientes em isolamento domiciliar e 80.656 considerados recuperados.
Julia Oviedo e Evandro Birello de Lima se conheceram em 2011 enquanto trabalhavam na Secretaria de Comunicação do Governo de Mato Grosso, em Cuiabá. Julia, na época estagiária de jornalismo, chamou a atenção de Evandro pela beleza e dedicação. Foi assim que eles trocaram contato e, depois de conversarem, marcaram de se encontrar. “Ele me convidou para sair pela primeira vez e desde então a gente nunca mais se largou”, ela relata.
O sentimento que surgiu entre os dois nasceu de maneira rápida, segundo Julia. “No nosso terceiro encontro ele me pediu em namoro, dizendo ‘ah, quer saber de uma coisa? A gente fica a vida inteira se reprimindo, fazendo joguinhos, só que a verdade é que eu estou louco por você’”, lembra. A jovem, no entanto, disse a Evandro que precisava de uma semana para pensar, mas confessa que dois dias depois já tinha dito sim ao seu amado. Eles passaram três anos e meio juntos, entre namoro e noivado, até que em 2014, por questões profissionais e pessoais, acabaram se separando. “Eu me lembro que era a Copa do Mundo, estávamos assistindo a um jogo e ele recebeu um telefonema com uma proposta de trabalho no Paraná. Todos felizes porque o Brasil tinha ganhado e foi o dia mais triste da minha vida”. Eles terminaram meses depois, mas mantiveram o contato.
Julia conta que os últimos meses foram difíceis para Evandro, pois a mãe dele sofria de um câncer no cérebro. Para ela, Evandro acabou contraindo a covid-19 nas idas e vindas para cuidar da mãe hospitalizada. “O irmão gêmeo dele foi internado e em seguida ele também, mas ele piorou muito rápido porque tinha pressão alta. Em menos de uma semana ele já estava intubado. Ele era muito novo, tinha apenas 42 anos”, lamenta. Evandro faleceu dias depois da morte da mãe, em agosto deste ano.
A terapia e a religião têm sido aliadas no processo de luto de Julia, que é feliz ao lembrar da história de amor que viveu com Evandro. “Não é todo dia que a gente ama e se sente tão amada assim. O Evandro foi e vai continuar sendo o homem da minha vida. Infelizmente o mundo perdeu uma das pessoas mais incríveis. Não existia pessoa mais educada, mais carinhosa, mais querida do que ele”, finaliza.
"O meu pai estava se afogando no seco e precisou ser intubado. O complicado da intubação é que o caminho contrário é muito longo, porque todos os problemas de saúde começam a aparecer, a vir à tona, e ele definhou".
O goiano Hamilton Ferreira da Silva, de 69 anos, foi um homem trabalhador que participou da construção da cidade de Alta Floresta, no norte de Mato Grosso. De acordo com Gabriella Rezende da Silva, sua filha mais nova, ele teve uma infância pobre e por isso batalhou para conquistar uma boa qualidade de vida para si e para sua família. Segundo ela, seu pai tinha uma força de vontade de viver impressionante.
Há dois anos Hamilton perdeu sua companheira de 40 anos, a esposa Lourdes, vítima de um AVC. Além disso, Gabriella conta que três meses atrás ele teve que ser operado depois de sofrer um infarto e que se recuperava dos dois traumas. “Ele estava superando a morte da minha mãe e o infarto, então tinha planos, sonhos”, afirma.
Ela acredita que seu pai ficou doente em uma das visitas ao médico e, após se sentir mal, precisou ser internado. Os exames mostraram que ele tinha sido infectado pelo novo coronavírus. “Meu pai foi enviado para um quarto em uma área isolada e eu pude ficar com ele, eu e as minhas duas irmãs porque todos nós tínhamos covid”, relata. As filhas se recuperaram da doença, mas como o quadro de Hamilton piorava, ele precisou ser levado para a UTI. “O meu pai estava se afogando no seco e precisou ser intubado. O complicado da intubação é que o caminho contrário é muito longo, porque todos os problemas de saúde começam a aparecer, a vir à tona, e ele definhou”.
“No velório do meu pai eu não tive a oportunidade de tocar nele antes dele ser enterrado. O sofrimento da morte por covid você engole e guarda para você sofrer em outra hora, só que essa outra hora nunca chega. A covid mata a forma que você quer se despedir de quem ama”, relatou. Atualmente Gabriella se dispõe a compartilhar a sua experiência e busca criar uma rede de apoio mútuo por meio do luto. Hamilton veio a óbito no dia 27 de julho e deixou quatro filhos e netos.
Autor: Analu Melo Ferreira | Fonte: Redação/PNB Online | Foto: Reprodução
