Primeiro vereador gay de Sorriso quebra tabus e luta contra conservadorismo

Maurício Gomes tem 31 anos e é vereador pelo PSB em Sorriso. Recebeu 961 votos, sagrou-se o oitavo mais votado na eleição e conseguiu uma vaga de suplente. Se tornou vereador, entretanto, após a Justiça Eleitoral descongelar os votos de Wanderley Paulo (PP), o que mudou o quociente eleitoral da sua coligação.
Além da juventude, chama a atenção por ser o primeiro representante popular assumidamente gay de todo Mato Grosso, é líder que defende demandas LGBT politicamente, inclusive na tribuna da casa de leis. Curiosamente, Sorriso tem fama de ser uma cidade bastante conservadora, talvez traço de sua colonização predominantemente vinda do interior do Rio Grande do Sul.
Ainda assim, é de lá também a Miss Gay 2017, Janvier Ricardo Pinheiro. “É sim uma cidade conservadora, mas estamos conseguindo quebrar paradigmas com representatividade não só de LGBTs, mas de mulheres também”, considera. Leia, abaixo, a íntegra da entrevista que ele concedeu ao RD News.
O senhor é assumidamente gay, a miss gay Mato Grosso também é de sua cidade, por que há tantas lideranças LGBT em Sorriso?
Sorriso é uma cidade diversificada, composta de imigrantes do Sul, mas também tem gente do Nordeste e de toda região Norte do país, onde há várias militâncias. Um exemplo, tivemos aqui o participante do BBB (Big Brother Brasil) que quase foi vencedor, temos a Miss Mato Grosso, e agora temos a Miss Gay também aqui da cidade. E eu sou representante dentro da Câmara do bloco LGBT.
Sim, mas a cidade sempre teve fama de conservadora. Essa fama não procede então?
É muito conservadora sim, mas tem quebrado o paradigma dentro da questão LGBT. Tem sido bem legal, através do respeito, com o respeito das classes, vem tratando bem e respeitando, na medida do possível, o público LGBT apesar de, sim, ser uma cidade conservadora.
O que mais consome a pauta da Câmara?
Os problemas de Sorriso são os mesmos problemas que afligem todo o país: saúde pública, educação, violência.
O senhor leva as pautas LGBT para lá? Quais?
Levo, inclusive na sessão passada teve o assassinato de uma travesti em Sorriso e eu usei os meus cinco minutos de tribuna para cobrar das autoridades policiais e municipais, dentro da secretaria de Assistência Social, um entendimento e uma explicação sobre a morte de Lori, uma garota de programa travesti que foi assassinada de maneira bárbara, com requintes de crueldade, na BR-163, e o caso foi solucionado. O cara que assassinou ela foi preso. Também sempre utilizamos a tribuna para inclusão, a questão social da visibilidade, não só dos LGBTs quanto das mulheres, muitas espancadas por seus maridos, e um trabalho voltado para esse público, além de tirar travestis das BRs, dar a elas cursos profissionalizantes, orientação ao público LGBT, para filhos que sofrem violência, uma vez que alguns pais não aceitam. Trabalhamos bastante essas questões.
Sorriso tem a maior área plantada de soja do planeta, quais as consequências sociais disso?
Sorriso é a maior produtora de grãos do mundo, com esse crescimento monstruoso, quase 10% ao ano, uma das cidades que mais crescem no país, também vem os problemas sociais, como habitação, saúde pública, infraestrutura, violência. Mas, Sorriso tem dado passos longos pelo tamanho da arrecadação desta cidade, hoje uma das maiores do Estado — a quarta maior economia –, então, ela também faz a parte dela, na questão social.
Aumento de violência vem a reboque de tudo isso, não?
Sim, a violência aumentou muito, tanto doméstica quanto urbana, uma questão de brigas, roubos, furtos e também assassinatos. Outro dia mesmo, um tio matou o próprio sobrinho com seis tiros num bairro periférico da cidade.
O senhor enfrenta preconceito na Câmara por sua orientação sexual?
Na Câmara não, mas já sofri em Sorriso, com cidadãos que acham que são donos da cidade. Como conversamos no começo da entrevista, é uma comunidade bem sulista e eu acabei sofrendo sim, mas também já briguei muito em tribunas, porque Sorriso não é de uma só pessoa, é de quase 100 mil habitantes que aqui residem. Mas entre os vereadores não. Me respeitam muito e apoiam a causa. Todos sempre têm abraçado o vereador Maurício Ramos na questão LGBT.
Autor: Rodivaldo Ribeiro | Fonte: Redação/ RD News | Foto: Reprodução
