Produção ganha novos caminhos

No Pantanal mato-grossense há um rebanho bovino de 2 milhões de animais. Na planície alagada reconhecida internacionalmente e que ocupa 361,666 mil quilômetros quadrados em sua totalidade, a atividade pecuária ainda predomina. E poderia ter uma abrangência maior e ser mais rentável com a retomada de uma antiga prática: a limpeza dos campos do Pantanal. Atualmente, cerca de 60% dos campos pantaneiros onde o gado é criado podem ser limpos, estima a pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Áreas Úmidas (Inau) e do Centro de Pesquisa do Pantanal (CPP) e professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Cátia Nunes da Cunha.
“Os campos estão perdendo a função econômica e ecológica porque os pecuaristas estão abandonando o costume de mantê-los limpos”. Também ocorrem situações irreversíveis, com fazendeiros contratando financiamentos para garantir o desenvolvimento e investir em espécies vegetais exóticas, sem monitoramento ou orientação.
“Há espécies nativas de outras áreas de vegetação que vão ocupando esses largos onde tradicionalmente se criava o gado e com isso vai diminuindo a área de pasto”. Sem a limpeza desses campos, os pecuaristas locais entraram num processo de perda de competitividade. “O perfil da pecuária no Pantanal mudou muito”, pondera Cátia. “Hoje quem entra lá são grandes investidores que podem manter as propriedades, tirando dinheiro de outras fontes de renda”.O baixo preço das terras na região facilita a aquisição.
Sobre esse processo de mudança nos últimos anos, este envolve fundamentalmente a transformação da estrutura familiar e o êxodo rural. “Antes, uma fazenda mantinha 15 homens jovens para fazer o trabalho ou esse sistema de trabalho era mantido com agregados. Hoje as leis trabalhistas são diferentes e o proprietário rural não tem condição financeira de manter empregados”. Para se adaptar à nova realidade, o fazendeiro dispensa a mão de obra humana e utiliza tratores para a limpeza da propriedade. Outra dificuldade é que as chuvas e os custos de operação das máquinas não permitem utilizá-las durante o ano inteiro para essa finalidade.
Mas, ainda é possível melhorar a renda nas propriedades pantaneiras sem desmatar as áreas secas, apenas com a recuperação dos campos nativos por meio do processo de limpeza tradicional, avalia a pesquisadora. Outra alternativa é diversificar as opções de renda nas propriedades, como por exemplo, manter a atividade de pesca, a apicultura, o turismo ou buscar alternativas para agregar valor à produção com subprodutos, como o couro na pecuária. “Não dá para ser economicamente sustentável com apenas uma atividade”.
Para que o desenvolvimento econômico na região seja sustentável, a pesquisadora defende a interlocução entre diferentes atores sociais, incluindo a comunidade científica. “Nosso século é de mudanças e as adaptações são necessárias, mas o grande desafio do nosso tempo é ambiental”.
E, em se tratando do Pantanal, a legislação ambiental não se torna adequada por causa da identidade e natureza da região, afirma ela. “O que faz ser o Pantanal é a inundação e, pelo artigo 10º do Código Florestal, em áreas como o Pantanal o uso deve ser ecologicamente sustentável”. Quem poderá definir essa ocupação ecologicamente sustentável são as instituições de ensino e pesquisa regionais, que por sua vez poderão orientar os órgãos de meio ambiente ao licenciamento. “Nós defendemos uma política específica para áreas úmidas, como é o caso do Pantanal, porque só essa orientação do nível do rio para definir as áreas que devem ser protegidas não é adequada à região”.
Para ela, sem uma lógica apropriada para nortear a preservação e ocupação da área é preciso estabelecer um acordo entre a comunidade científica e tradicional, no caso, o pantaneiro. “Também é necessário um plano estratégico em conjunto com um órgão público de extensão rural para definir como irá executar investimentos”.
Cooperação – Essa aproximação com a comunidade pantaneira estimulou os pesquisadores do Centro de Pesquisas do Pantanal (CPP), ligado à Embrapa Pantanal (Mato Grosso do Sul) e UFMT a propor e testar a viabilidade de subprodutos de peixe, como alternativa de geração de renda para a população local, como expõe o professor e pesquisador do CPP, Edivaldo Sampaio de Almeida. “Somos vinculados à rede Pesca, que é uma das 4 redes de pesquisa do CPP”.
Produtos como almôndegas, linguiças, patês e hambúrgueres à base de peixes nativos do Pantanal, como pacu e cachara, estão em análise. “A Embrapa Pantanal faz o estudo do processamento e nós da UFMT analisamos a parte microbiológica dessas amostras para tornar viáveis esses produtos”. A intenção é disponibilizar a técnica para as cooperativas de pescadores. De acordo com o pesquisador, na região de Corumbá (MS) está sendo desenvolvido um projeto piloto. “Ainda é muito novo e está sendo assimilado pelos pescadores, mas acreditamos que num futuro próximo todos esses produtos serão uma realidade para essas comunidades”.
Em Mato Grosso, um projeto semelhante foi iniciado há alguns anos com comunidades ribeirinhas de Várzea Grande. Na Cooperativa dos Pescadores e Artesãos de Pai André e Bonsucesso (Coorimbatá), fundada em 1997, é feito o processamento de peixes, mas restrito a poucos produtos derivados, como o filé do pescado, lembra Almeida. O peixe foi, inicialmente, o produto principal da cooperativa, acrescenta a pesquisadora Gabriela Rocha Priante Teles de Ávila, que estudou o funcionamento da Coorimbatá em sua dissertação de doutorado. “Em função desse recurso natural não estar mais disponível como antes, a Cooperativa passou a agregar outros produtos na sua cadeia produtiva, como frutas passas, mandioca frita, castanha-do-Brasil e mais recentemente o jacaré-do-Pantanal”, cita ela.
Disseminação de conhecimento – Este ano, 48 educadores de assentamentos rurais e comunidades quilombolas concluíram especialização em Educação do Campo Saberes Pantaneiros e Socioeconomia Solidária, proposta pelo Instituto Federal de Educação (IFMT), Campus Cáceres, Núcleo Avançado do Pantanal em Poconé (Napan). O curso caracterizou-se como um fórum de discussão e de produção científica sobre a realidade educacional, cultural e socioeconômica das comunidades camponesas do Pantanal mato-grossense.
Treze projetos de pesquisa foram desenvolvidos, centrados na investigação científica da realidade de comunidades rurais nos municípios de Cáceres, Nossa Senhora do Livramento e Poconé. Os trabalhos, desenvolvidos por meio de metodologia participativa, traçam diagnósticos e perspectivas das comunidades locais, tendo como cenário os espaços de vida da população envolvida e que orientaram temas como a educação do campo, agricultura familiar, cultura e saberes pantaneiros.
Fonte: Redação / A Gazeta | Foto: Ilustrativa
