Silval admite ter criado organização criminosa para pagar dívidas

O ex-governador Silval Barbosa (PMDB), que estava preso desde setembro de 2015 e conseguiu a soltura na tarde desta terça-feira (13), confessou ter praticado os crimes investigados nas diversas fases da Operação Sodoma, da Delegacia Fazendária.
A informação consta na decisão da juíza Selma Arruda, da Vara Contra o Crime Organizado da Capital, que autorizou a soltura do político, detido no Centro de Custódia da Capital.
De acordo com ela, em depoimento à Delegacia Fazendária, no dia 1º de junho deste ano, o ex-governador confessou ter participado do esquema que culminou no pagamento de R$ 31,7 milhões para a desapropriação de um terreno no Bairro Jardim Liberdade, em Cuiabá, sendo que metade do valor (R$ 15,8 milhões) teria retornado como propina ao grupo.
Este esquema é alvo da ação penal derivada da 4ª fase da Operação Sodoma, deflagrada em setembro de 2016.
“Explica Silval que tal procedimento foi realizado com um único propósito de desviar dinheiro público do Estado em benefício da organização criminosa, já que possuía uma dívida com Valdir Piran, decorrente de empréstimos tomados na campanha e que com a negociata conseguiu levantar 10 milhões de reais”, diz trecho.
O empresário Valdir Piran chegou a ser preso na operação, mas foi posteriormente solto mediante fiança de R$ 12 milhões.
De acordo com a juíza, Silval também disse que participaram deste esquema o ex-secretário de Estado Pedro Nadaf, o ex-presidente do Instituto de Terras de Mato Grosso, Afonso Dalberto (que é delator) e o procurador aposentado Francisco Lima Filho, o "Chico Lima".
Conforme o ex-governador, todos eles "receberam propina para colaborar com o sucesso da empreitada criminosa". Silval também apontou a participação do ex-secretário de Fazenda Marcel de Cursi, que está preso, e do ex-secretário de Planejamento, Arnaldo Alves, "apenas não se recordando se esses dois efetivamente receberam parte da propina combinada".
"O total do desvio foi de R$ 31.715.000,00, sendo que o combinado com a empresa Santorini era o retorno da propina no montante da metade desse valor", disse Silval.
Sodoma 1
Conforme Selma Arruda, Silval também confessou a participação no esquema deflagrado na 1ª fase da operação, em setembro de 2015, consistente na exigência de propina de R$ 2,5 milhões ao empresário João Batista Rosa para concessão de incetivos fiscais às empresas do mesmo. Os incentivos foram propositalmente concedidos de forma irregular para forçar o empresário a continuar pagando propina sob ameaça de revogar os benefícios.
Na decisão, consta que Silval disse ter sido procurado por João Rosa em 2011, acompanhado de Nadaf, ocasião em que se queixou de um crédito tributário que não era reconhecido pela Secretaria de Fazenda.
O ex-governador disse que, a princípio, encaminhou João Rosa para tratar do caso com o então secretário-adjunto da Sefaz, Marcel de Cursi. Porém, Cursi teria se negado a reconhecer o crédito.
Ocorre que dias depois, de acordo com Silval, o empresário e os ex-secretários Nadaf e Cursi acertaram que concederiam o Prodeic (Programa de Desenvolvimento Industrial e Comercial de Mato Grosso) a João Rosa,"desde que ele abrisse mão do crédito que possuía".
Acabou formando o staff de governo com pessoas de sua estreita confiança, que eram incumbidos de arrecadar recursos do erário público para o pagamento de tais dívidas e, com isso, criou uma verdadeira organização criminosa
"Com relação a este episódio, esclarece que, em razão das dívidas de campanha das eleições do ano de 2010, assumiu um grande passivo a ser saldado e, por isso, escolheu alguns secretários para o recebimento de propina e para saldar as dívidas assumidas".
"Pedro Nadaf teria sido um dos designados para esta função, sendo que no caso do Prodeic concedido às empresas de João Rosa não se recorda de ter sido avisado acerca de pagamento de propinas, porém tomou conhecimento posterior que parte dos valores recebidos de João Rosa foram utilizados para pagamento de parte de uma dívida com um empresário", diz trecho da ação.
A juíza também citou que Silval admitiu ter incumbido a Pedro Nadaf o recebimento de propinas para o pagamento de tal dívida e que soube que parte dos valores pagos por João Rosa foram utilizados para a quitação desta dívida".
"Esclareceu, também, que Francisco Gomes de Andrade Lima Filho, vulgo “Chico Lima” atuou neste caso para auxiliar no pagamento do débito referido. Explicou que, nesta ocasião, Silvio Cesar Correa de Araújo, à época chefe de gabinete do Governador, lhe solicitou a quantia de R$ 25.000,00, sendo que foi Chico Lima que efetuou o depósito de tal quantia em favor de Silvio por meio da Factoring de Filinto e Frederico Muller [os dois últimos delatores da Sodoma]".
Conforme a decisão, Silval também confessou que após sair do Governo, ficou sabendo que João Rosa estava negociando uma delação premiada, "tendo por isso procurado Pedro Nadaf por várias vezes para discutirem sobre este assunto".
"Apontou que Marcel de Cursi também recebeu propina através da operação e também por intermédio de Pedro Nadaf. Durante o seu interrogatório, repisou que, em razão de compromissos políticos e dívidas assumidas na campanha de 2010, acabou formando o staff de governo com pessoas de sua estreita confiança, que eram incumbidos de arrecadar recursos do erário público para o pagamento de tais dívidas e, com isso, criou uma verdadeira organização criminosa, que atuou durante os anos de 2010 a 2014".
Autor: Lucas Rodrigues | Fonte: Redação / Mídia News | Foto: Reprodução | Cidade: Mato Grosso
