Criminalidade em Mato Grosso assusta até policiais; afirma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas

Pesquisa realizada com policiais de diferentes instituições da área de segurança pública municipal, estadual e federal mostra que 70% dos policiais do país já tiveram colegas próximos assassinados fora do serviço. O percentual é maior se comparado ao dos profissionais que disseram ter perdido um colega assassinado em serviço (61,9%). A maioria das vítimas é do sexo masculino (63,6%).
Dados como estes fazem parte da pesquisa intitulada "Vitimização e percepção de risco entre profissionais do sistema de segurança pública" feita pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV) e com a Secretaria Nacional de Segurança Pública. O resultado foi divulgado na última semana.
Participaram do levantamento 10.323 policiais militares (44,5%), civis (21,2%), federais (5,4%), rodoviários federais (5,8%), integrantes do Corpo de Bombeiros (6,5%) e da Guarda Municipal (16,6%) de todos os estados brasileiros. Mas, a amostra foi pondera por regiões. O estudo foi realizado entre os dias 18 de junho e 8 de julho deste ano.
Entre os PMs, o índice é maior. Neste caso, 77,5% disseram ter tido um colega morto fora da atividade. Assassinados em serviço, foram 73%. Já de acordo com dados da Polícia Militar, seis militares foram assassinados no Estado desde 2014 até o momento. Do total, metade estava de folga.
Um dos mais recentes ocorreu em agosto passado, no município de Sinop (503 quilômetros, ao norte da capital). Lá, o tenente-coronel da Polícia Militar, Helton Vagner Martins, 39 anos, foi assassinado com quatro tiros durante uma tentativa de assalto dentro da própria residência. Martins foi abordado na porta de casa, por volta das 19h30, quando lavava o carro. Os bandidos levaram o tenente-coronel para dentro da residência, juntamente com o filho dele.
Um dos assaltantes, então, teria reconhecido o policial e mandado outro bandido atirar. O PM levou dois tiros no tórax e um na cabeça. Ele chegou a ser levado para o hospital, mas não resistiu. À época, quatro suspeitos foram presos por envolvimento no crime, sendo três deles menores de idade.
A pesquisa revela também que 75,6% dos profissionais afirmaram ter sido alvos de ameaça durante o horário de trabalho. Outros 53,1% fora do serviço. "As ameaças costumam ocorrer durante o atendimento de uma ocorrência. E, muitas vezes, a pessoa detida ou o agressor não faz ameaça só contra o policial, mas contra toda a sua família", disse o presidente da Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar de Mato Grosso, Adão Martins da Silva.
Ainda, conforme o levantamento, 15,6% já foram diagnosticados com algum tipo de distúrbio psicológico, como depressão e esquizofrenia. "No Estado, temos vários casos de policiais militares com problemas psicológicos. Os motivos são vários fatores que vão desde o risco inerente à profissão, à preocupação com o salário, que quando chega ao fim do mês não dá para mais nada, embora isso tenha melhorado, e a preocupação com a própria vida e com a família", destacou.
No geral, o estudo mostrou que 33,6% tiveram pelo menos um familiar vítima de violência ou ameaçado e 65,7% afirmaram que já foram discriminados por serem profissionais da área de segurança pública. Já 50,4% reconhecem que têm dificuldade em sustentar a família.
Outros dados importantes mostram que os agentes costumam adotar hábitos específicos no dia a dia para evitar serem alvos de retaliação ou violência: 35,2%, por exemplo, escondem o fato de serem policiais ou agentes prisionais de conhecidos. Além disso, quase metade (44,3%) jamais deixa à mostra a farda ou o distintivo no trajeto casa-trabalho. E, 61,8% evitam usar transporte público, o que chama bastante a atenção.
Autor: Joanice de Deus | Fonte: Redação/ Diário de Cuiabá | Foto: Ilustrativa (Reprodução)
