Ex-prefeito confirma que cedeu avião para juíza fazer pré-campanha em MT

Selma Arruda ainda era chamada de “doutora” e “meritíssima” quando começou a se articular para disputar as eleições de 2018. Ao menos é o que afirmou o ex-prefeito de Sorriso (397,6 Km de Cuiabá), Dilceu Rossato (PSL), em depoimento ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE), no mês de novembro do ano passado.
O caso, já revelado em dezembro, volta à tona agora, faltando poucos dias para a juíza aposentada tomar posse como senadora da República pelo PSL. Selma responde uma ação no TRE por abuso de poder econômico que deve ser julgada até o mês de abril.
De acordo com Rossato, o encontro entre ele e Selma foi articulado pelo advogado Rafael Klas Dal Bó, um dos líderes do PSL de Mato Grosso. O encontro, às escondidas, teria sido realizado na casa da juíza, entre os meses de fevereiro e março de 2018, sem saber explicar a data com precisão.
Na época, Selma Arruda ainda ostentava a toga de juíza, decidindo processos na 7ª Vara Criminal de Cuiabá. Na oportunidade, Dilceu fez o convite para que Selma aceitasse disputar o Governo do Estado ao seu lado, como vice do ex-prefeito.
“Naquele momento, ela ainda era juíza, não estava aposentada, e o tratamento foi com convite sigiloso entre nós para que não pudesse, assim, causar uma expectativa, também porque ela ainda era juíza, né?! Aí nós tivemos uma conversa nossa e, inclusive, ela ficou de decidir ao Senado, e logo em seguida ela acabou aposentando, também, sendo candidata”, afirmou.
O ex-prefeito ainda apostava suas fichas para disputar o Governo do Estado e, por isso, fez o convite à Selma. Nesta época, nenhum dos dois era filiado ao PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro.
Rossato, cujo depoimento durou pouco menos de 20 minutos, também explicou que cedeu à Selma Arruda, como apoiador, o uso de sua aeronave durante o período de pré-campanha. Segundo ele, o avião saiu de Sorriso com destino à Cuiabá, onde Selma embarcou rumo a Barra do Garças (521,2 Km de Cuiabá).
Os custos da viagem, porém, o ex-prefeito não soube informar. Isso porque, segundo ele, por se tratar de avião próprio, não faz ideia do preço de mercado para fretamento de uma aeronave do modelo usado por ele.
Referente ao voo, Rossato soube informar apenas que sua aeronave consome cerca de 35 litros de combustível por hora e que, por atingir pouca velocidade, cerca de 200 km/h, fez um total de seis horas. Considerando os dados apresentados pelo ex-prefeito, é possível fazer uma estimativa de um consumo de cerca de 210 litros de combustível.
Além disso, ele ainda afirmou que o custo operacional do piloto é de R$ 200 a hora do voo, o que resulta em R$ 1,2 mil. Questionado sobre a legalidade dos gastos da campanha de Selma, pivô das ações judiciais que responde no TRE, Rossato afirmou não ter conhecimento acerca dos gastos porque não teve acesso ao financeiro da campanha da então candidata.
Segundo ele, durante todo o encontro que teve com Selma, ela se disse preocupada em conduzir todo o processo eleitoral dentro da legalidade, principalmente pelo nome que construiu ao conduzir os casos da 7ª Vara Criminal, em grande parte, que condenaram políticos e empresários corruptos.
“Nós até andamos juntos em algumas reuniões, mas, até o ponto em que conheço, nada foi feito de forma ilegal. Sempre ela tinha essa preocupação, ainda mais porque ela veio do Judiciário, de fazer tudo de acordo com a lei. Mas eu não tive acesso à parte financeira. Na pré-candidatura, ela nunca pediu votos, sempre de acordo com a lei”, depôs.
O caso
Selma Arruda responde a três ações por abuso de poder econômico e suspeita de Caixa 2 durante as eleições de 2018. As ações foram propostas individualmente por dois de seus adversários, o advogado Sebastião Carlos (REDE) e o ex-vice-governador Carlos Fávaro (PSD). A terceira ação foi proposta pelo Ministério Público Eleitoral (MPE).
As peças judiciais foram propostas após o empresário Júnior Brasa, dono da Genius Publicidade, entrar com uma ação cível contra Selma por calote de R$ 1,2 milhão em um contrato supostamente firmado ainda durante o período de pré-campanha. O objeto do contrato seria justamente trabalhar a imagem da então pré-candidata, preparando-a para a disputa que começaria em agosto.
A prática foi vista como Caixa 2 por opositores de Selma, uma vez que não havia registro de gastos referente a este período. Já a senadora eleita, por sua vez, se defendeu afirmando que não existe prática de Caixa 2 em período de pré-campanha, uma vez que não há CNPJ tampouco registro da candidatura.
Inclusive, um de seus argumentos é que os pagamentos ao empresário Júnior Brasa foram feitos por meio de cheques nominais, o que corroboraria para a argumentação de que nada foi às escondidas da Lei.
Devido aos três processos terem o mesmo objeto, o desembargador Pedro Sakamoto, relator do caso no TRE, determinou a junção das três peças e a tramitação em conjunto.
Até o momento, o caso tramita com prioridade no TRE e já resultou na quebra do sigilo bancário de Selma Arruda e seus dois suplentes, Gilberto Possamai e Clérie Fabiane, ambos do PSL.
Uma das informações confirmadas por todos os envolvidos é que Possamai é o grande financiador da campanha da chapa, responsável por todos os pagamentos realizados.
Selma Arruda foi eleita senadora da República no dia 7 de outubro de 2018 ao receber 678.458 votos, o que representa 24,65% dos votos válidos. Ela ficou à frente do primeiro colocado nas pesquisas de intenções de voto, Jayme Campos (DEM), que inclusive já ocupou a cadeira que irá retomar agora.
Carlos Fávaro, neste caso, é o mais interessado na possível cassação do registro de candidatura de Selma. Isso porque, caso isso aconteça, Jayme se torna o primeiro colocado e ele, Fávaro, que ocupou a terceira colocação, passa a ser o segundo senador eleito por Mato Grosso.
A prestação de contas de Selma ao TRE apresentou gastos na ordem de R$ 1,8 milhão, indicando um custo de R$ 2,70 por voto recebido.
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Autor: Tarley Carvalho | Fonte: Redação / Mídia News | Foto: Reprodução
